Escrever salva
Mas, às vezes, dá vontade de desistir
O cansaço num belo dia em que prevalece a vontade de desistir de escrever, de transformar a ideia em algo palpável. Quem trabalha com palavras concorda com Drummond, quando, no meio da crise, chega o verso lutar com as palavras é a luta mais vã. E é isso mesmo.
Tem dias em que todo o movimento de escrever e publicar parece besteira, um esforço sem sentido. Num país como o nosso, blá-blá-blá, em que o índice de leitura etc.
Nessas horas o silêncio parece mais fácil.
Tipo as noites em que estamos a mais pura exaustão. O dia foi longo, a cabeça pesa, o espasmo vem e o cursor piscando na tela parece nos encarar, desafiando para uma luta livre sem feridos. Fecho o caderno, o computador, dobro a folha, jogo no lixo? Reviso o que está pronto? Deixo para depois? A tentação é grande. Ao mesmo tempo que sei que, se não tentar, tudo vai continuar aqui dentro, sem nome.
Escrevo.
Sem saber exatamente para onde estou indo, mesmo que saia tudo meio torto. Porque sei que, no final, isso me ajuda a entender.
A real é que escrever não é só um hábito. É sobrevivência.
É assim que coloco ordem no caos, que faço sentido do que sinto. A escrita é a minha forma de dar nome ao que, de outro jeito, ficaria perdido - eu me perderia. Um jeito de me ouvir sem interrupções, de organizar o interno e criar um mínimo de clareza. Se estou sobrecarregada, escrever alivia. Se o mundo parece um peso, a escrita abre espaço.
Penso em Sartre e sua ideia de que a existência precede a essência. Se a gente se constrói pelas nossas escolhas, escrever é meu jeito de me definir. Cada palavra que coloco no papel é um lembrete de que existo, de que estou tentando, de que é difícil, mas sigo tentando. Nietzsche via a escrita como um meio de transformar valores, de ressignificar. Para mim, de alguma maneira, é isso também: um jeito de reorganizar tudo que penso, de abrir caminho para continuar.
Quando a vontade de parar bate, lembro: não se trata só de escrever. Trata-se de me entender. E, no fim das contas, isso é o que me mantém de pé.

